Cearense largou alcoolismo pela Portuguesa e sofre com derrocada histórica

Fonte: UOL

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Tem certas coisas que só acontecem com a Portuguesa. Por exemplo, perto da bilheteria do Canindé antes de um jogo pela Copa Paulista, uma semana depois de o time ser eliminado da quarta divisão nacional, um torcedor de 77 anos grita para quem quiser ouvir:
“Aqui é Portuguesa, mano! Aqui a gente não abaixa a cabeça para ninguém!”

Seu nome é Antônio Dionísio, mas ele pede para ser chamado de Kaverna (“escreve com K”, ordena ele). Veste-se com uma camiseta rubro-verde, a palavra Barcelusa estampada no peito, uma lembrança da época não tão distante em que eles eram comparados com os gigantes da Catalunha. Conhecido por todos os que frequentam o Canindé, Kaverna é um dos dois torcedores-símbolo da Lusa.

(O outro é chamado de Sardinha, mas esse não gosta de falar com a imprensa por medo de ser sequestrado.)

Kaverna chorou quando a Portuguesa foi eliminada na Série D há uma semana. É a fase mais difícil de uma história centenária. Mas ele chorou mais ainda quando o time foi rebaixado no tapetão da Série A em 2013. Ali foi o início do calvário luso.

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“Uma quadrilha rebaixou a Portuguesa para salvar o Fluminense”, afirma Kaverna, ecoando sentimento comum entre as centenas de outros fiéis seguidores nesta noite fria (14º no termômetro, vento gelado às margens do Tietê na capital paulista).

De lá para cá, foram três rebaixamentos nacionais, uma briga entre cartolas que parece não ter fim e um mar salgado de lágrimas de Portugal. O quarto maior time da maior cidade do país agora precisa vencer a Copa Paulista para se classificar à última divisão em 2018, do contrário ficará fora do calendário.

Entre um lance e outro Kaverna conta sua história de amor ao clube da comunidade dos colonizadores. Ele não tem qualquer ligação familiar com o além-mar, já que nasceu em Fortaleza, no Ceará, e chegou a São Paulo em 1965 como milhões de outros retirantes nordestinos.

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Era, então, alcoólatra; passava os dias enchendo a cabeça de cachaça, como ele lembra. Um dia um português lhe fez uma proposta tentadora: se ele parasse de beber, lhe daria um título de sócio da Portuguesa. Kaverna topou e, orgulhoso, largou a mardita, abraçou a abstemia e um clube que também se tornou sua família na cidade grande.

“Nunca mais bebi uma gota de álcool”, ele informa. Também lembra que naquela época foi difícil romper a barreira racial dentro da comunidade portuguesa nos trópicos. “Não tinham muitos negros no clube. Os portugueses olhavam torto, falavam ‘preto isso’, ‘preto aquilo’, era foda. Hoje graças a Deus não tem mais.” Ele ganhou o apelido na época em que trabalhou como salva-vidas na antiga piscina do Canindé. Costumava pular de um alto trampolim desempenhando na queda variadas posições heterodoxas, e a molecada lá embaixo gritava “Vai Kaverna!”: Capitão Caverna era um troglodita peludo dos estúdios Hanna-Barbera que andava de cima pra baixo com um pedaço de pau nas mãos. Ele adorou.

De vez em quando puxa seu celular para mostrar as fotos daquela época, e nessas fotos é possível vê-lo de sunga, ao lado de beldades dos anos 80 com seus biquínis asa-delta e penteados-capacete. De vez em quando ele puxa a carteira pra mostrar ingressos antigos de jogos da Portuguesa, aos quais ele comparece quase religiosamente.

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Ele vive de uma pequena aposentadoria em uma casinha perto do estádio e não mora com a mulher nem com filhos (faz mistério sobre eles, que ficaram no Ceará); não tem dinheiro para colocar crédito no celular e nem para viajar atrás da Lusa Brasil afora. Mesmo assim ele viaja. O clube lhe dá ingressos, e Kaverna conhece o atual presidente dos tempos de salva-vidas do clube; a torcida organizada lhe garante uma cadeira nas caravanas, às vezes alimentação e um senso de família que faz caverna estufar a Barcelusa no peito e dizer: “Isso aqui [a Portuguesa] é tudo para mim.”

Após a Portuguesa vencer a Portuguesa Santista por 1 a 0, Kaverna volta para casa caminhando sobre a calçada do Canindé, estádio que ele conhece há mais de 40 anos, onde ele se tornou parte de uma coisa maior, onde as pessoas o cumprimentam como se ele fosse um amigo íntimo, e antes de se despedir, avisa: “Se precisar de mais alguma coisa, você sabe onde me encontrar.”

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